O coral sol e a ocorrência no Brasil

O coral sol e a ocorrência no Brasil

Fonte:  IBAMA

1. Sobre o Coral-Sol

Corais do gênero Tubastraea (Cnidaria, Anthozoa, Scleractinia, Dendrophylliidae) são azooxantelados que crescem em águas rasas, em recifes de coral e costões rochosos tropicais. Nativos dos oceanos Pacífico e Índico, hoje algumas espécies são consideradas cosmopolitas, sendo amplamente distribuídas em águas tropicais do Atlântico, Pacífico e Índico. O gênero Tubastraea é conhecido popularmente por coral-sol (sun coral, cup coral, sun polyps) sendo que duas espécies são registradas no litoral brasileiro: a T. coccinea (de cor vermelho-alaranjado) e a T. tagusensis (de cor amarela).

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2. Ocorrência no Brasil

O primeiro registro do gênero Tubastraea no Atlântico data de 1943 e o da espécie de T. coccinea foi documentado em 1951. Aparentemente, os cascos de navios serviram como vetor para a introdução inicial, com consequente aumento da população de T. coccineapor todo o Caribe. A introdução acidental do coral-sol no Brasil se deu nas décadas de 1980 e 1990. Duas espécies são encontradas hoje no país: Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis. O gênero foi registrado inicialmente na década de 1980 em plataformas de petróleo na Bacia de Campos, Rio de Janeiro, mas sem que se iniciassem estudos e registros sistemáticos.

O primeiro registro em substrato estável natural, num costão rochoso, veio a ser reconhecido em 1998, em Arraial do Cabo. Assim, o processo de introdução decorreu num intervalo de tempo de cerca de vinte anos, não se podendo precisar quando exatamente ocorreu. Atualmente, há registros de ambas espécies nas costas sudeste e sul em costões rochosos naturais e estruturas artificiais, além de alguns registros na costa nordeste, muitas vezes associados a plataformas de petróleo.

De acordo com o levantamento realizado por consultoria contratada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), há registros de ocorrência do coral-sol na zona costeira dos seguintes estados do Brasil:

  1. Rio de Janeiro – Baía de Ilha Grande, Baía de Sepetiba, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Armação dos Búzios e Arquipélago das Cagarras;
  2. Bahia – Baía de Todos-os-Santos;
  3. São Paulo – Ilhabela, Arquipélago de Alcatrazes e Laje de Santos;
  4. Espírito Santo – Vitória e Guarapari;
  5. Santa Catarina – Ilha do Arvoredo; e
  6. Ceará – Acaraú, nessa localidade o registro se refere à ocorrência de Coral-sol em naufrágio, a cerca de 40 km da costa.

O Coral-sol também foi registrado nas seguintes Unidades de Conservação (UC):

  1. Rio de Janeiro – Estação Ecológica de Tamoios, Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Aventureiro, Área de Proteção Ambiental de Tamoios, Parque Estadual da Ilha Grande, Monumento Natural das Ilhas Cagarras, Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, Área de Proteção Ambiental de Cairuçu e Reserva Ecológica Estadual da Juatinga;
  2. São Paulo – Estação Ecológica dos Tupinambás, Área de Proteção Ambiental de Cananéia-Iguape e Peruíbe, Parque Estadual Marinho da Laje de Santos, Parque Estadual de Ilha Bela e Área de Proteção Ambiental do Litoral Norte de São Paulo;
  3. Bahia – Área de Proteção Ambiental Baía de Todos-os-Santos, Área de Proteção Ambiental Recife das Pinaúnas e Reserva Extrativista Baía de Iguápe;
  4. Santa Catarina – Reserva Biológica Marinha do Arvoredo.
  5. Paraná – Área de Proteção Ambiental de Guaraqueçaba; e Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais.

Esta espécie invasora já foi registrada no Estado de Sergipe, onde estaria associado a plataformas de petróleo nos campos de Camorim e Dourado.

O coral-sol é observado amplamente distribuído na zona costeira brasileira, ocorrendo tanto em ambientes naturais quanto em artificiais, como píeres, boias e plataformas de petróleo. Estas ocorrências não se dão na mesma magnitude, havendo locais em diferentes estágios de invasão e adaptação.

Modelos mostram que a possível distribuição futura de T. coccinea seria uma expansão contínua desde o limite norte até o limite sul do litoral brasileiro, além da possível ocorrência em algumas ilhas oceânicas e no banco dos Abrolhos. O modelo sugere uma probabilidade menor de ocorrência dessa espécie no litoral extremo norte do país. As plataformas e outras estruturas associadas à exploração de petróleo são apontas como principais vetores de introdução dessas espécies. Contudo, a participação de navios como vetores trazendo essas espécies de corais incrustadas em seus cascos foi admitida pelos pioneiros neste estudo no Brasil, além de ser ainda discutida a possibilidade de sua introdução através de água de lastro de navios. Tendo em vista que existem outros vetores potenciais (cascos de navios),bem como outras suspeitas (água de lastro), os esforços de pesquisa podem contribuir para elucidar tais questões.

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3.Impactos do Coral-Sol

Estudos mostram que esse bioinvasor tem sido responsável pela modificação das comunidades bentônicas de costões rochosos na região de Ilha Grande, Rio de Janeiro, e em recifes de coral na Bahia, reduzindo a abundância das macroalgas. Entretanto, foi observado um aumento da riqueza da diversidade de espécies onde Tubastraeaestava presente. O aumento na diversidade poderá acarretar na diminuição das interações competitivas e consequentemente na redução da abundância das espécies competidoras.

O coral-sol domina as áreas invadidas, em especial nas paredes do recife (zona vertical). Ainda nas paredes do recife, a cobertura dos corais nativos Mussismilia hispida e Madracis decactis foi significativamente menor nas áreas invadidas do que nas áreas não invadidas. Vale destacar que a espécie Mussismilia hispida é endêmica aos corais brasileiros, o que aumenta a preocupação quanto aos impactos do coral-sol sobre a biodiversidade nativa. Deve-se observar, contudo, que não foi demonstrada uma mudança significativa na cobertura da área do topo dos recifes por corais nativos. O estudo aponta também a mortalidade de tecidos dos corais nativos Siderastrea stellata,Mussismilia hispida e Madracis decactis em contato com o invasor. Montastraea cavernosa, por sua vez, não foi afetado e, pelo contrário, demonstrou habilidade em atacar o coral invasor.

Nas paredes dos recifes as condições ambientais são aquelas mais favoráveis ao gênero Tubastraea, superfície vertical e sombreada, onde eles podem enfrentar uma menor competição com corais nativos zooxantelados do que em ambientes com alta radiação solar (topo dos recifes). Além deste fator, Tubastraea e outras espécies da família do coral-sol (Dendrophylliidae) são descritas como competidoras agressivas devido ao uso de tentáculos que frequentemente causam danos ao tecido de corais vizinhos ou impedem o crescimento de ascídias. Além disso, a alta capacidade reprodutiva do coral-sol pode acelerar o deslocamento de espécies nativas que possuem taxa reprodutiva inferior. Os fatores que determinam o sucesso competitivo do coral-sol devem ser melhor estudados, a fim de contribuir com subsídios para a definição de ações de mitigação de seus impactos sobre a biodiversidade nativa.

O coral-sol pode também facilitar a invasão de outras espécies exóticas, onde colônias de T. coccinea e T. tagusensis serviram de substrato consolidado para duas espécies de bivalves exóticos Myoforceps aristatus e Isognomon bicolor. Cabe destacar que ambas as espécies são classificadas como invasoras pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Dados indicam que as ocorrências de coral-sol no Litoral do Estado de São Paulo não provocaram redução na riqueza de espécies, na diversidade e na equitabilidade na presença de várias espécies distintas. Contudo, discute a possibilidade de este ser um evento ainda recente, mas que espera “que ao longo do tempo a densidade e a cobertura relativa desses invasores aumentem na região, diminuindo a biodiversidade e a riqueza local, causando maior homogeneidade no ambiente e maiores impactos e alterações nas comunidades” do Litoral Norte do Estado de São Paulo. Além disso, destaca que a presença de T. tagusensis altera a cobertura relativa dos organismos e a estrutura das comunidades nativas de Ilhabela.

É importante ressaltar que a presença do coral-sol também pode ter efeito nas interações ecológicas entre as espécies nativas, a presença de micromoluscos (com grande prevalência de juvenis) em colônias de coral-sol (T. tagusensis) na Baía de Todos-os-Santos em colônias provenientes de duas estações: naufrágio Cavo Artemidi (13°03’31”S, 38°31’55”W) e Recife de Cascos (13°7’10”S, 38°38’50”W). O estudo contribui para o reconhecimento da biodiversidade da malacofauna na Baía de Todos os Santos, particularmente representada por micromoluscos em evidente ocupação de novo habitat, revelando o estabelecimento de relações faunísticas entre o coral-sol e organismos nativos.

Foi verificado a interferência de peixes popularmente conhecidos como “sargentinhos” e “donzelas” em colônias de T. tagusensis na Ilha de Búzios (SP). Pesquisadores sugerem que para a desova, esses peixes desalojam colônias de coral-sol abrindo uma “clareira”, que após o nascimento dos peixes pode ser colonizada por outros organismos bentônicos nativos. Verificaram experimentamente que, quanto maior a densidade de coral-sol, maior a riqueza de espécies de esponjas que se desenvolveram nas unidades experimentais, sendo as mais abundantes as espécies Mycale microsigmatosa, Lotrochota arenosa e Mycale americana e as mais frequentes a Calcarea sp., Dysidea etheria e Mycale microsigmatosa. A invasão do coral-sol pode acarretar em aspectos negativos no âmbito social e econômico, com o a perda da produção de atividades baseadas nos ambientes e nos seus recursos, como a pesca, aquicultura e turismo. Os impactos causados pela bioinvasão do coral-sol no Brasil merecem ser mais analisados, considerando que as consequências de uma bioinvasão tendem a ser mais pronunciadas em comunidades/ecossistemas com menos espécies nativas, devido à correlação estatística existente entre diversidade funcional e riqueza específica.

As perspectivas do impacto a ser causado pelo coral-sol incluem a expansão da área de distribuição em substrato natural em uma velocidade aproximada de 2 km/ano. A expansão da área de invasão do coral-sol pode ser mediada pelo recrutamento gregário da espécie, por correntes ou até pequenas embarcações sem tratamento e de baixa mobilidade, e colonização de substratos naturais a partir de vetores próximos a costa, incluindo áreas protegidas. Neste cenário, sistemas recifais, tais como o Banco de Abrolhos e a Costa dos Corais, tornam-se extremamente vulneráveis, destacando-se a importância de estudos nestes sistemas e em outros sistemas recifais brasileiros. Não existe estudo que confirme que a ampliação da distribuição das populações de T. coccinea tenha ocorrido às custas da exclusão de qualquer espécie nativa. Existe a possibilidade de haver nichos disponíveis no ecossistema que Tubastraea poderia estar ocupando com eficiência. Também há a questão do dano ou perdas de espécies nativas no Atlântico Ocidental causado a invasão por T. coccinea. Faltam dados sobre o seu impacto, com exceção de dados de cobertura e potencial monopolização do espaço bentônico.

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4. Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Coral-sol (Tubastraea spp.) no Brasil

Em decorrência do aumento da dispersão do coral-sol na costa Brasileira, e da preocupação sobre os impactos ambientais atuais e potenciais associados a este processo de invasão, o Ministério do Meio Ambiente (MMA), elencou o coral-sol (Tubastraea spp.), juntamente com o javali (Sus scrofa) e o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), espécies exóticas invasoras prioritárias para a elaboração e implementação de Planos Nacionais de Prevenção, Controle e Monitoramento. A Meta foi estabelecida pelo Governo Federal no seu Plano Plurianual (PPA 2016-2019) com o intuito de “Controlar três espécies exóticas invasoras, mitigando o impacto sobre a biodiversidade brasileira”.

Duas espécies de coral-sol são encontradas hoje no país: Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis. O gênero foi registrado inicialmente na década de 1980 em plataforma de petróleo na Bacia de Campos, Rio de Janeiro, mas sem que se iniciassem estudos e registros sistemáticos de sua distribuição. O primeiro registro em substrato estável natural, num costão rochoso, veio a ser reconhecido em 1998, em Arraial do Cabo/RJ. Estas duas espécies são consideradas os primeiros corais escleractíneos a invadirem o Atlântico Oeste, e são encontrados em ambientais naturais e estruturas artificiais.

Para tratar do coral-sol, o MMA instituiu o Grupo de Trabalho Coral-Sol (Portaria MMA nº 94 de 06/04/2016) visando fornecer assessoramento técnico e coordenar a elaboração do Plano de controle e monitoramento da bioinvasão do coral-sol (Tubastraea spp.).

O presente documento tem como objetivo apresentar um diagnóstico sobre a invasão do coral-sol no Brasil, com base no pré-diagnóstico elaborado pelo MMA e nos subsídios fornecidos pelo GT da CIRM. Assim, será abordado um panorama geral sobre a distribuição, biologia e ecologia do coral-sol; impactos à invasão de Tubastraea spp.; aspectos sobre o controle e erradicação; principais experiências nacionais e internacionais; legislação e as iniciativas existentes sobre o assunto em questão no Brasil e no Mundo.

Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Coral-sol (Tubastraea spp.) no Brasil ( PDF -1.2 MB)

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